Focada no combate à corrupção, a operação Lava Jato, promovida pela Polícia Federal, teve grandes avanços ao longo do ano. Além de indiciar dezenas de políticos e desmascarar alguns dos mais complexos esquemas de lavagem de dinheiro, a ação contou com polêmicas que repercutiram no mundo inteiro.

O primeiro ponto a ser destacado no ano da Lava Jato é a morte do relator da operação no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Teori Zavascki. Aos 68 anos, o magistrado faleceu após a queda de seu avião em Paraty, litoral sul do Rio de Janeiro em 19 de janeiro.

“O ministro Teori era um homem de bem e era orgulho para todos os brasileiros. Nós estamos decretando luto oficial por um período de três dias, uma modesta homenagem a quem tanto serviu à classe jurídica, aos tribunais e ao povo brasileiro”, declarou na época o presidente Michel Temer.

O avião de pequeno porte com capacidade para oito pessoas decolou do Campo de Marte, em São Paulo, rumo ao litoral. A aeronave despencou a apenas 2 km da cabeceira da pista de pouso em Paraty. Os quatro ocupantes morreram na hora.

Responsável por mais de 50 inquéritos e ações penais da Lava Jato, Teori morreu no momento mais importante de seu trabalho como relator da operação: a homologação da delação premiada de 77 executivos da construtora Odebrecht. A aprovação dos depoimentos foi feita pela presidente do Supremo Tribunal Federal, a ministra Carmen Lúcia.

Já no dia 2 de fevereiro, o ministro Edson Fachin foi escolhido através de um sorteio eletrônico como o substituto de Zavascki na relatoria da Lava Jato. No mesmo dia o juiz Sérgio Moro condenou o marqueteiro João Santana, sua mulher e outros quatro réus por corrupção ativa e lavagem de dinheiro, crimes investigados na 23ª fase da operação.

Ainda em fevereiro foi a vez da Lava Jato indiciar o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, o empresário Eike Batista e mais sete pessoas. Foi a segunda vez que Cabral e sua esposa se tornaram réus em processos investigados pela PF. O político foi denunciado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Já Eike também foi acusado por lavagem de dinheiro e corrupção ativa.

O mês contou ainda com um dos depoimentos mais aguardados da história da política brasileira. Na sede da Polícia Federal de Brasília em 14 de fevereiro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, réu em uma ação penal que suspeita de obstrução dos trabalhos da Lava Jato, negou todas as acusações.

Durante seu depoimento, Lula afirmou estar sendo vítima de um “massacre” por seu nome ter sido relacionado às investigações contra corrupção nos últimos três anos. Segundo a acusação, o ex-presidente estaria envolvido em um esquema para convencer o ex-presidente da Petrobras Nestor Cerveró a não fechar acordos de delação premiada.

“Há mais ou menos três anos, doutor, eu tenho sido vítima de uma… eu diria quase que de um massacre. Ou seja, eu acho que todos aqui têm dimensão que um cidadão que foi um presidente da República […] de repente é pego de surpresa por manchetes de jornais e televisão todo dia, todo santo dia, no café da manhã, no almoço e na janta alguém insinuando ‘tal empresário vai prestar uma delação e vai acusar o Lula, tal deputado vai prestar uma delação e vai acusar o Lula. Agora vou prender fulano, agora vão pegar o Lula, prenderam o Bumlai, vai delatar o Lula, prenderam o Delcídio, vai delatar o Lula, prenderam o Papa, vão delatar o Lula’. Estou esperando pacientemente”, afirmou o ex-presidente ao juiz Ricardo Leite.

Passado o depoimento do ex-presidente, outro episódio marcante da Lava Jato em 2017 foi a condenação de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara em 30 de março. O deputado estava preso desde outubro de 2016 e recebeu a pena de 15 anos e 4 meses de prisão.

A sentença foi dada pelo juiz federal Sérgio Moro. Cunha foi acusado de receber propina da Petrobras para a exploração de petróleo na África. O político do PMDB ainda responde por outras duas ações penais e está ligado a outros cinco inquéritos investigados pela Polícia Federal.  “O condenado recebeu vantagem indevida no exercício do mandato de Deputado Federal, em 2011. A responsabilidade de um parlamentar federal é enorme e, por conseguinte, também a sua culpabilidade quando pratica crimes”, disse Moro na época.

Já em abril foi a vez do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato, ser o principal personagem da operação. No dia 11 ele autorizou a Procuradoria Geral da República (PGR) a investigar 98 políticos, entre eles oito ministros, três governadores, 24 senadores e outros 39 deputados federais.

A investigação foi baseada na conhecida lista de Janot, feita pelo antigo relator antes de sua morte. No documento, o magistrado havia destacado os principais suspeitos descobertos com base na delação premiada de ex-executivos da construtora Odebrecht.

Entre os nomes, destaques para Eliseu Padilha (PMDB), ministro da Casal Civil, Gilberto Kassab (PSD), ministro da Ciência e Tecnologia, Wellington Moreira Franco (PMDB), ministro da Secretaria-Geral da Presidência e Aloysio Nunes Pereira (PSDB), ministro das Relações Exteriores.

Pouco depois, em maio, o jornal “O Globo” levou a público a principal descoberta feita pela operação Lava Jato no ano. Em delação premiada à PGR, os donos do frigorífico JBS Joesley e Wesley Batista disseram que gravaram o presidente Michel Temer (PMDB) aprovando a compra do silêncio do deputado cassado e Eduardo Cunha (PMDB) após sua prisão pela PF.

Ao longo da gravação, o presidente afirma estar pagando uma mesada não apenas para Cunha, mas também para o operador do esquema Lúcio Funaro. “Tem que manter isso, viu?”, afirma Temer na escuta.

Além de citar Temer, Joesley afirmou ter gravado o senador Aécio Neves (PSDB) pedindo R$ 2 milhões em propina ao empresário para conseguir pagar sua defesa durante a investigação da Lava Jato. Todas as transações foram filmadas com câmeras escondidas.

Em resposta à notícia, a Presidência da República negou qualquer tipo de repasse. “O presidente Michel Temer jamais solicitou pagamentos para obter o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha. Não participou e nem autorizou qualquer movimento com o objetivo de evitar delação ou colaboração com a Justiça pelo ex-parlamentar. O encontro com o empresário Joesley Batista ocorreu no começo de março, no Palácio do Jaburu, mas não houve no diálogo nada que comprometesse a conduta do presidente da República”, segundo uma nota oficial publicada pelo Palácio do Planalto.

Em junho foi a vez do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral ser condenado. Detido desde 2016 acusado dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Cabral ficará preso 14 anos e 2 meses após decisão do juiz federal Sérgio Moro. Já a esposa do político foi absolvida dos crimes por falta de provas.

No mês seguinte, em 12 de julho, o ex-presidente Lula foi condenado a 9 anos e 6 meses de prisão no processo que envolvia a compra e reforma de um apartamento tríplex no Guarujá. Foi a primeira vez desde a Constituição de 1988 que um ex-presidente foi condenado criminalmente.

Na sentença, Moro citou documentos e depoimentos que provavam a ligação do petista com o imóvel no litoral paulista. Lula foi condenado em primeira instância por crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva e recorre da decisão em liberdade.

“É de todo lamentável que um ex-Presidente da República seja condenado criminalmente, mas a causa disso são os crimes por ele praticados e a culpa não é da regular aplicação da lei. Prevalece, enfim, o ditado ‘não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você’”, disse Moro na sentença.

Na mesma sentença a equipe de advogados do ex-presidente entrou com um recurso contra sua condenação e ainda pediu esclarecimentos sobre os pontos elencados por Moro para compor sua decisão. O juiz federal rejeitou as questões propostas pela defesa.

Em agosto, ex-líder do governo de Lula e Dilma, Cândido Vaccarezza foi preso em uma nova fase da Lava Jato. O ex-deputado federal foi acusado pelo Ministério Público Federal de receber a maior parte de um repasse de cerca de US$ 500 mil em propina. Dias depois, o juiz Sérgio Moro decidiu soltar Vaccarezza após o pagamento de R$ 1.522.700 em fiança.

O último grande golpe da Lava Jato contra a corrupção em 2017 ocorreu em setembro. Na operação Unfair Play, a PF e o MPF cumpriram mandatos na casa de Carlos Arthur Nuzman e no Comitê Olimpíco Brasileiro. A suspeita era de que a entidade havia realizado compra de votos para a escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2012.

 

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